sábado, 27 de outubro de 2007

hoje faz um lindo domingo
embora seja sábado.


vou casar com pássaros
eles também acordam cantando.


segunda-feira, 22 de outubro de 2007

autobiog

Magra de Ruim ou
Sirlanney F., 23 anos, drogada, prostituida...
(Trabalho para a disciplina Criação de Moda)

Sirlanney, S I R L A, dois N, E Ípsilom no final. Si, para os não-íntimos. Como se lê, filha do interior do Ceará. Qualquer depoimento sobre Sirlanney findará mal escrito, por sua contradição. Tudo que vemos, dizemos ou ouvimos a seu respeito pode ser desmentido no dia seguinte, no outro reafirmado, sucessivamente, até o outro segundo ou até a próxima década. Não há regra, mesmo com os sentimentos em estado mais bruto, o amor, o ódio, ela só os consegue sentir generalizadamente, como uma onda. Quando amor, tem vontade de beijar a boca do primeiro à sua frente, abraçar, ouvir, dizer eu te amo, ou amo a humanidade. Quando ódio, cala-se, tranca os dentes, olha torto, desconfia, não suporta, sofre e se isola, quer morrer. Um bom quadro para diagnosticar qualquer distúrbio mental. Procurou o psiquiatra e vai lá vez por outra, só para falar aos amigos: meu psiquiatra diz que sou normal, seja lá o que isso quer dizer. Gosta de fazer rir, mas não é uma boa amiga. Despreza mentira, mas gostaria de saber mentir. Desistiu de tentar.
Desistiu dos homens. Tentou as mulheres e desistiu delas, mas ainda quer casar. Acha que o amor é qualquer coisa de complicação tão complicada que merece o dia inteiro só pensando nisso. Pensa no sorriso bonito, na palavra não dita, repassa mil vezes uma cena que foi e inventa outra que tem que acontecer. Pega a camisa que roubou do último paquera e se acalenta com o cheiro, pensa em flores, faz planos. A noite, no bar, ouvindo Maysa, declara: amor é o de menos, meus queridos, eu preciso é de um emprego. Gosta de bares à noite e durante o dia. Gosta mesmo de uma bebida, uma conversa à toa e uma música de amor machucado. Música de quem gostava de uma bebida, uma conversa à toa, um violão e um amor machucado. Pois acredita que pra fazer um samba com firmeza é preciso um bocado de tristeza, como acredita que uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza. E é uma mulher com qualquer coisa de triste, com qualquer coisa que chora, com qualquer coisa que sente saudade. Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher. Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão.
Já quis casar com Vinícius, com Chico, com Julian, agora quer casar com Pedro. Às vezes pensa ser a menina feiosa da Casa de Bonecas, ou a Cabíria de Fellini, ou Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo. Já quis ser Twiggy, Uma Thurman e Kate Moss. Acredita que já foi Henry Miller, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Dostoievski e Julio Cortázar, em outras vidas. Mas só crê em espíritos e em Deus antes de dormir, porque tem medo, e então reza um pai nosso e três ave-marias. Sonha com a pomba gira e consulta Freud. Bota cartas e lê mão desde os doze anos, mas não bota fé. Explica e entende o temperamento de todas as pessoas de acordo com o signo solar, signo ascendente e signo lunar, mas obviamente não acredita em nada disso, porque é uma mulher estudada, com nota máxima em Antropologia Cultural e Cultura Brasileira, não tem porque se prender a crendices. É mãe, e sabe que isso de mãe impõe várias responsabilidades, embora não saiba onde esqueceu suas calcinhas.
É magra de ruim, como ouviu durante toda a infância. Absurdamente magra, com dedos enormes. Mas não daquelas magras sem graça, desajeitadas, de ombros curvados. É uma magra esbelta, brusca e exagerada, nos gestos, nas expressões, quando dança, quando anda, quando discursa, quando sente, quando pensa. Ontem ela pensava em ir à feira, comprar alho, cebola, manjericão, mas lembrou que não mora mais em frente à Praça da Gentilândia. Gosta de praças durante o dia e durante a noite. Acredita que...

Continua.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

blog é um negócio chato.

sábado, 13 de outubro de 2007

Estou explorando descarada e conscientemente meu pai. Claro que me envergonho disso. Vivo não tranqüilamente às suas custas, com ligações rotineiras pedindo sempre algumas migalhas antes do bom dia. Sempre migalhas, tão cômodas, tão necessárias, tão penosas, tão suadas e tão certas migalhas! Quando eu tinha nove ou dez anos de idade, em meio a um discurso lição de moral, que meu pai sempre foi grande nisso, usei um argumento retirado não sei de onde, provavelmente de algum programa instrutivo na tevê , ou de alguma conversa de cunho revolucionário e libertário com colegas na escola. Esperei o momento certo, o silêncio, um pé dentro e o outro fora do quarto, falando já esquivando, mas em altivez: “Olha, eu não pedi pra nascer.”, “An?”, “Eu não pedi pra nascer!”, repeti obstinada, porém já fora do quarto, onde ainda pude escutar “Mas nasceu, e aí?”, “E aí o problema é seu!” era o que viria depois, se esse “Mas nasceu” não tivesse soado tanto como “Mas se fudeu”, que nem atrevi, nem arrisquei... Recolhi-me, tive a certeza mais uma vez dentre tantas outras vezes que ainda teria, que meu pai é um bom homem, que não merece ser explorado, tadinho.
Então, por favor, arranjem-me um emprego, porque pra mim ainda é mais fácil ligar a cobrar de qualquer orelhão, o que me lembra outra história. Muito boa, HAHA, aquelas de seqüestro forjado. Conto logo após alguns depósitos:
Conta corrente: 27145-4
Agência: 3653-6
Banco do Brasil.


Porque está na hora de explorar novos rumos.