Ontem, enquanto eu lavava louça, por conta dessas associações de ordem misteriosa, lembrei do blog, de como ele me parece tão sem sentido agora e fiquei me distraindo numa investigação de sentido para esquecer o trabalho braçal. Então lembrei de como tudo começou e é a história que agora conto:
Eu era uma garota normal de 16 anos e, faça as contas, em 2001. No livro de português, aqueles textinhos para ilustrar, uma matéria falando do fenômeno blog, já era um fenômeno e eu era uma garota normal e atrasada do interior do ceará. A matéria falava assim com outras palavras: O diário virtual, as pessoas contam o seu dia, coisas que gostam de fazer, o que quiserem, e ainda tem o espaço para outros escritores de blog comentarem. Uau, eu estava encantada, não lembro se dormi. Fui pro computador do meu pai e depois de uma grande pesquisa de servidor hospedei o Junkie Girl. A história não parece divertida? Então, era. Eu não lembro bem o que escrevia, juro. Lembro que era isso, coisas cotidianas, que o meu layout era preto com as letras vermelhas, às vezes lilás, eu mudava muito o layout, eu aprendia HTML. Gostava de Black Sabbath, de Janis Joplin, de Ramones, gostava imensamente de Ramones. Namorava o jovem que hoje é o senhor pai da minha filha, na época ele tinha um cabelão e uma barba encantadora, devia me dar muito motivo pra escrever. E, acreditem, eu tinha amigos. Pá pei e buf, descobri o sentido. Eu tinha amigos, amigas, amigas góticas e wiccas, pelo que lembro. Gente desconhecida, óbvio, porque numa cidadezinha de 40.000 habitantes no interior do ceará, no começo deste século, era difícil alguém com Internet, e quem tinha não ia se preocupar com blog, né. Tinha eu e meus amigos desconhecidos espalhados pelo mundo. Eu emocionava esses amigos com o que escrevia, só pode, era minha arma pra fazer amizade, pra parecer legal, e me divertia com as histórias que lia também. Esse era o espírito, eu escrevia minha vida crua e impressões inventadas, ou o inverso. Anunciei a minha inconseqüente e grande aventura, momento ápice, eu estava grávida, que romance, que novela!
Aí virei mãe e perdi meu tempo com vômitos, médicos, mamadeiras, uma novela e tanto, mas uma preguiça medonha. Minhas amigas que me perdoassem. Entrei na faculdade de uma vez, fui pra capitar, outra história. Obviamente eu nem era nem tentava mais ser Junkie Girl. Conhecia várias pessoas todos os dias, era a minha diversão junto com o orkut. Os novos nomes tinham blog, peraí, todos tinham blog. Criei o Magra de Ruim, um belo fim para a garotinha tão drogada. Eu nem lembro mais onde estão minhas amigas do Rock, esse meu jeito de perder contato, não conservar, não ir atrás, riscar da lista, esquecer o nome, acredito que elas devem ter crescido também. Sem exageros porque passaram só 7 anos e agora que namoro um guapo mais de 30, ele me convence que 2001 foi ontem. Eu tinha um disco do João Gilberto até, tinha Maysa em mp3, curtia os vinís do meu pai do Lupicínio Rodrigues, Cartola, Nelson Cavaquinho, etc, aos domingos só, porque eu era mesmo do Rock e às vezes, uma maldade, botava sepultura no máximo pra assustar a empregada, pra causar exatamente, meu conceito de intimidação. As meninas de hoje nascem cultas, mas não importa a época ou o que escutam, porque a besteira gritante apaixonada, a fúria, é a mesma, pelo menos para as loucas furiosas. Luna aquietou meu facho, me fez... crescer, talvez. Mas meus novos amigos tiraram a graça do blog, eu envelheci pro blog. Comentem com anônimos, por favor, criem blogs góticos, não sei o que está acontecendo comigo, mas peço ajuda.
Leitores do meu blog hoje:
Amigos; que querem saber como estou, o que ando aprontando.
Ex-namorados; que querem saber como estou, o que ando aprontando.
Minha irmã que parou de falar comigo desde que soube que eu era lésbica; querendo saber como estou, o que ando aprontando.
Recalcados em geral, procurando vitrine e notícia. Ninguém interessado numa boa novela sem compromisso. E nem comentam, que é pior.
É a morte pra você, meu querido, você já está morto?!
