quinta-feira, 9 de outubro de 2008

diálogo de surdos

Diálogo de Surdos


Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco
na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te
apresento a mulher mais discreta do mundo: essa
que não tem nenhum segredo

(A. C. Cesar)


- Então, você não se sente recalcada com tudo isso?

- Claro que não, acho até que vocês combinam muito.

- Duvido.

- Pode duvidar.

- ...

- Certo, acho você bonita demais para ela. Mas é só.

- Ela agora tem franja.

- Mas faz chapinha, né? Que cabelo ruim com franja não presta.

- Você é impossível, está vendo, recalcada.

Mais um gole, muda assunto. Um cartaz: Enquanto houver bar, há esperança.

[Claro que não é recalque. O que significa uma franja? Sua irmã, que é super cafona, tem franja. Qualquer umazinha tem franja, e essa coisa chelsea girl, amelie poulain, já era, está mais do que cansado, está out há, no mínimo, dois anos, pelo amor de deus. O que uma pessoa consegue fazendo franja é se igualar a milhares de outras copiadoras de estilo caras. Por isso que meu cabelo é grande e inteiro. Feito coque, ou de qualquer jeito. Partido no meio, um leve charme vindo dos anos setenta, Esse Obscuro Objeto de Desejo, ou dos hippies, como queira, a contracultura, a tropicália e todo esse lixo que você gosta tanto. Devia gostar de mim.]

- No que você está pensando?

- Penso, logo existo.

- Blasé! Não passa de um legume insignificante.

- Está viciada nessa expressão e ela é feia.

- Legume? Você não acha, usou em um de seus emails. mas eu uso muito mesmo, alguém até reparou: "Você fala legume demais, é legume isso, legume aquilo...

- Não, estava só citando Who's Afraid of Virgínia Woolf.

- An?

- Olha ali: "enquanto houver bar, há esperança".

- E bem ali tem: Pire, onde devia ter: pare.

- Ah.

- Morena, minha morena, tira a roupa da janela, vendo a roupa sem a dona, eu penso na dona, sem ela, morena, minha morena, tira a roupa...

- Vou pedir a conta.

Mas eis que chega a Dani, salve salve Daniele!