sexta-feira, 3 de outubro de 2008

esperando o bote

Esperando o Bote

não depende da vontade.

Julio Cortázar

Talvez pareça absurdo para quem me encontra espiando, distanciada, para dentro das sacolas de feira, meus olhos arregalados. Para ele, por exemplo, quando eu peço para verificar, antes que eu comece a cortar as verduras e os legumes. Eu também, quando não sabia da possibilidade do perigo, vivia livre. Então, um dia, eu e meu namorado fomos visitar as velhas tias. Chazinho aqui, bolinho ali, sempre aquela tarde cheia de tédio e pesar. Eu me repartindo em medonhas fatias de atenção, oferecendo de bom grado para uma, depois para outra, ah, a senhora, tome sua parte! E elas podiam dizer satisfeitas: Que menina encantadora você arranjou! No fim, todo mundo orgulhoso, eu querendo morrer. Porque velhas, eu sei, são pequenos demônios falantes que resmungam, como as crianças, e é preciso cuidado, paciência e rebolado. Principalmente para pretendentes a nora, magrinhas, sem quadril e tão pouco habituadas com o fogão. Mantenho sempre meus olhos fixos, sobrancelhas contraídas, um leve sorriso ou um “sério?” “Nossa!” “Eu não acredito” “é verdade” com o tom adequado para cada pausa, e entre uma e outra pausa, não lembro quem, disse:

Fiquei mesmo assustada e agora morro de medo. Foi, ouvi no rádio, você não escuta rádio?, o programa daquele locutor... Ele disse, e é verdade, tinha uma cobra na geladeira da mulher. Dá pra acreditar? Onde esse mundo vai parar? Um verdadeiro absurdo, pois que, agora, não se pode confiar em mais nada. A mulher foi comprar um alface, espinafre, sei lá o que, veio uma cobra dentro. Ela não viu na hora, guardou na geladeira, só depois. O bicho estava lá: Uma cobra!

Gente, que estória mais idiota, pensei. Nossa! Que coisa?!, falei e soltei em seguida uma das risadinhas educadas. Depois de alguns olhares de súplica, meu querido cansou de me torturar e decidiu encerrar a visita. Vão com Deus, beijinhos e bolinhos para casa. Ufa. Ah, ainda o tchauzinho para a janela quando ganhamos a rua. Acabado o ritual, classifiquei a tal história da cobra como mais um elemento dele. Cuidei de esquecê-la e nunca poderia imaginar, como pude verificar depois, o quanto aquele papo de tias iria me impressionar.

Hesito, porque me sinto um Ed Wood, explicando em Glen or Glenda. Contar, se levando a sério, sabendo-se ridícula. Porque, é sério, eu sei que elas estão lá, sempre que compro um ramo de espinafre, alface, ou outras folhas que gosto tanto. A sacola pesa, o exato peso da cobra. Então vou desamarrando cuidadosamente, pensando: Não pode ser, é claro que não tem, você verá. E, de longe, cutuco com um cabo de vassoura ou coisa assim, e vou separando, numa boa distância, e espalhando todas as folhas na pia, até que me certifique, por fim, que estou doida, que não faço bom uso da lógica, ou do julgamento. Está ali a prova, não tem cobra e eu, definitivamente, não posso acreditar que eu. Mas, espera, por que não? Se tinha uma cobra dentro dessa sacola, pelo tempo que eu levei para guardar as batatas, o macarrão, a carne, o pão e as etcétaras, é claro que ela já saiu. Já ganhou a casa. Só deus sabe pra onde. Deve estar me olhando, a desgraçada, e eu não posso vê-la, enquanto ela espera o momento exato do bote. Então é certo: estou pirando. Foi-se o meu juízo, porque não pode ter cobra nesse mundo civilizado. É mais um medo absurdo que tenho, como o de que ventilador de teto caia ou que o prédio desabe. Revelando minha total descrença em milênios de ciência e arquitetura, ou apenas um sintoma da cada-vez-mais-evidente esquizofrenia, histeria. Sendo a cobra um símbolo fácil no inconsciente coletivo. Na índia, a Kundalini, serpente do tantrismo, a energia que transita nos chakras. O meu medo da morte, a maternidade frustrada, a ausência do pai, ansiedade, sexualidade reprimida, a cobra fálica. Cansam-me as explicações, porque ela ainda está aí. De tanto eu acreditar, não é possível que não tenha se materializado e, se ela estiver aí, como sinto agora, escutando o seu chocalho, sentindo o seu roçar em minhas pernas, ela existe, e não é porque eu quero, mas está aí, em algum lugar, esperando o momento exato do bote.

Não depende de mim, nem da minha vontade. Se ela estiver, como não posso saber onde, sutil que é, deslizando, enroscando-se, camuflando-se, num canto do armário, no meio das minhas roupas, ou dentro de uma panela, ou onde agora estão os meus pés! Então pronto, que venha, estou morta, acabou, eu não posso é deixar de fazer o almoço por causa disso. Vou cortando o espinafre, jerimum, cebola, e coloco o arroz no fogo com a quantia exata de água. Tempero a carne, corto e frito. Está feito um almoço rico em fibras vitaminas proteínas, saboroso, além de bonito e bem acabado. Depois do almoço o resto, tantas ocupações, afastam a cobra. Aí vem a noite com sua escuridão e o meu descanso. E, ainda que não tenha espinafre, tem a cobra. Olhando de algum lugar... Novamente estou aflita, tentando ouvir seu chocalho ou adivinhar antes que ela me veja e dê seu bote de surpresa. Rezo um pai nosso e tento dormir, aceitando mais uma vez que se ela existir, Mas não tem cobra nenhuma meu amor, Eu sei, mas se ela existir, não há nada que eu possa fazer, que dê o seu bote. Com isso durmo e quando acordo, Está vendo, não tinha cobra nenhuma, é um lindo novo dia, porque se estou sã, essa cobra de mentirinha já é de estimação. É um lindo novo dia, livre de cobras que vem em sacolas, pelo menos até a próxima sacola.



post scriptum: Depois que escrevi o texto, sonhei que procurava o médico, sobre as minhas dores e ele receitava: Coma as cobras. Ainda neste sonho, uma amiga (que prefiro ocultar a identidade) aparece com três cobras na mão: vamos fazer um bom cozido!