quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Minha solidão é minha paz. Quando escrevo no microsoft word não tenho os rabiscos, eles são parte do que escrevo, meus pensamentos buscando a ordem. Aqui as linhas apenas custam a sair. Sou uma menina mimada, criada numa terra de ninguéns, engraçado e triste. A minha casa materna parecia uma casa de bonecas, as portas tão pequenas que eram. Um dos quartos, que ficou por dez anos conhecido como o quarto dos brinquedos, tinha um banheiro minúsculo, com a pia de um metro, medindo do chão, para que as crianças alcançassem. Tem, ainda está lá, mesmo que o tenhamos abandonado, ele está lá com a pia de um metro, mas é outro, e haverá um dia que, por ser outro, crescerá alguns centímetros a pia. Minha necessidade de romancear as coisas, o meu dom, a minha mania besta. Faço novelinhas e depois fico arrasada com a ilusão destas. A menos que outras pessoas percebam, vivo em paz. Só como posso ser, criando todo o tempo histórias... enquanto não tiver de prestar contas, estou bem. Aqui e acolá presto contas comigo e já estou ficando cansada de novo.

Tenho que ir comer e despregar-me. Comer não é e nunca foi prioridade. Esta magra. Que mais posso falar, senão de mim? Sou uma mimada. Feliz com meus novos discos da Chavela Vargas. Ontem, quando ele chegou e coloquei para tocar, acompanhando com minha desafinação, recebi um leve tapa: Vou tocar trompete, posso fechar a porta?
Não, não precisa. Desliguei o som. Escute seu jazz, é melhor para tocar, estou indo para cozinha. Mas ele já estava trompeteando e não me ouviu. Bati a porta e fui para cozinha e estava cabaleando ou coisa assim, e devo ter jogado um olho de fogo para ele, porque perguntou: Você está bem? O que houve?
Era pra você ouvir comigo, eu tenho um novo disco, e ele é tão lindo... custa ouvir?, quer que eu acredite que você é incapaz de sentir também essa beleza? Minhas últimas palavras foram: Esse disco tem ótimas músicas. Em seguida você me fechou a porta. Não era uma exclamação, era uma introdução. Toque aí o seu trompete, nobody knows you... when you down and out
Nobody wants me round their door
Mmmmm, when you're down and out

Como é que eu ia explicar sem ser apenas uma mimada? Então cortei o peito do frango em pedacinhos, com nojo, fazendo perguntas sobre quantidade e sabor. Tentando esquecer o que já estava ali espalhado, me aperreando. Cada vez que eu perguntava, ele terminava uma nota e me respondia. Seria mais fácil se tocasse um violão, então o trompete é problema seu, como ele não fala, eu custo a perceber. E como é delicado, tornando-me insuportável, mas respondendo sempre. Assim não damos certo. Agora tenho que comer e deixar essa conversa para depois ou nunca mais. Assim nós vamos nos suportar, porque logo eu trato de fazer uma comidinha bem gostosa, paro de encher e deixo ele arranhar bastante o nobody knows you, que pode ser também baby, wont please come home. Mas Chavela, meu filho, Chavela Vargas não mais, agora é tarde, já conhece minhas músicas e nada mais é misterioso e instigante. Continua com seu jazz, mas vamos ver o filme que fizeram sobre Frida Kahlo, estou me sentindo meio Frida hoje, sou meio Frida Kahlo. Não se canse disso também, por favor. Sempre me sinto um artista, um escritor, um personagem de Fellini, o próprio Fellini, mas acredito... dessa vez pode ter acontecido mesmo da alma da Frida Kahlo ser agora essa Sirlanney. Isso cansa, depois deu mudar a alma do meu corpo cem vezes em um ano. Não se canse, está bem? Vamos fazer disso uma piada, sendo verdade: eu sou essa possessa, que se apossa. Olha como pode ser divertido! Eu posso não ser a única, será um filme! Outras garotas, ou garotos, podem se apossar de mim, não me incomodo, se eu não souber. Eu mesma vou fazer esse filme na nossa modernidade, é melhor assim, sem ninguém para me representar, eu represento. Eu sempre me represento muito bem.