segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Não compreendo a necessidade de personagem, se eu sou minha própria personagem e fico feliz assim. Falo por mim. Eu, magrinha e gostosa, Dulcineia dos Santos, recém chegada aos trinta, publicitária, uma mulher das letras. Uma alma boa, se dizer isso não é pecar demais por egolatria. Coragem tenho e tento perseverança, temperança e outras ancas. Estou absorta em mim, tanto que, assim acredito que estejam os outros. Ora, desejo o bem (sejam felizes!) logo sou boa.
Todavia,
o que tem de gente querendo me ver pelas costas!
Facínoras, estão por toda parte. O indiscutível é, a certeza que todos compartilham: Eu tenho dom para vilã. Só pode. Independe dos meus atos, é uma inclinação involuntária, pois bem. Eu, como já disse, de tão puros e nobres sentimentos... Ademais, sou vunerável... aí explica. Não, explicação não, por favor, desabafo. Entrego-me a expiação, vejam minhas chagas, eis minha novela. Assim me livro dos párias. Gentinha leiga e mais ou menos, mentes distorcidas. Eu conto a história, sou a minha personagem vilã, como quiser. Sou vítima agora. Vilã ou vítima? Que difícil o papel de escolher. 
Mas, adiante, a inclinação involuntária para a malvada, a madrasta. Minha filha, coitada, disse outro dia: Você parece a madrasta. Minha filha, essa também vítima, repetindo certamente gente que a cerca.
Depois arranjei um psiquiatra para nomear a coisa: transtorno de personalidade paranoide.  Ótimo que agora sou além: meu carrasco particular. É mais uma de minhas paranóias, hein? Estou aprontando...
Controle-se, gata.
Tudo porque tenho o plexo aberto, entende?, sinto aqui, uma punhal enfiado, das costas pros peitos. Esse fogo espalhado no mundo, que às vezes lançam em mim. Em outras partes do corpo também, incluindo as íntimas. Por isso que, na parada gay, - e merece que eu conte, um espetáculo sem igual! De decadência, evidente – o fim trágico.

Tudo porque me deixei levar. Estava no metrô, voltando de um comportado almoço em família, tardinha. Então surge um grupo gigante, desorganizado, barulhento, escandaloso. Em suma, um assustador grupo de adolescentes. Visivelmente deliquentes, meio modernos, pouco civilizados... Viadinhos e sapatas de periferia, logo compreendi: parada gay! E segui o grupo, a distância, evitando cuidadosamente a mistura.
Rio de janeiro, maravilha mutante. Calor e promiscuidade desgarrada. Porque, se gay, então temática sexual, se sexual, então quatro paredes, meu bem, mas lá estava eu, no calçadão de Copacabana. Numa espécie de festa do cabide à fantasia. Olá, estou aqui, ei, eu vou pra cama com mulheres. Bom dia, eu vou pra cama com homens. Oi, pego os dois. Aê, gente! Eu simpatizo, hein?! Piscadela. Caliente demais para mim. Então esvazio rápido três latinhas de cerveja, penduro duas no pescoço e encomendo outras no ambulante. Dou um nó na camisa e refresco a barriguinha com gelo, as costas o pescoço as axilas. Como se bastasse! Valeu todo mundo. Eu gosto de homem de mulher de mulher que gosta de homem que gosta de mulher que gosta mulher e parece homem que gosta de homem que gosta de mulher.
always should be someone you really loooooooooove!!! Ah ah ah a-a-a-a...

E DAQUI A POUCO TÔ PELADA!

Opa! Uma ex, que encontro casuaaal, de mãos dadas com uma menininha que só a mãe dela vendo. Olha a globo ali, hein?! Todas me olham assustadas. Explico: A tal ex era uma pervertida que, como quase toda mulher, já dizia Nelsinho - grande mestre, gostava mesmo era de apanhar. Uns bons tapinhas na rachada, na bundinha, tapões, mordidões, completamente doida. Eu ia na onda. Uma vez fiquei com ciúme, porque vi seus olhos luzindo e ouvi um gemido de prazer da putinha, enquanto um amigo mostrava, no seu braço, a marca dos dentes da violenta amante, Naty Louca. Esta que foi logo depois de mim, consequentemente, a nova namorada da boneca. Mas para a moçada amiga eu continuo sendo: Dulci, a crazybitch, que bate. Queda pra vilã, eu acho. Já disse, não me importo, subi a blusa de novo e sambei pra elas. Pediram logo outro número, as mocréias. Acabei improvisando: a retirada. Porque não suporto que parem de me amar.

É que sou, inclusive, muito bonita. Parâmetro: Desse povo feio não quero nenhum. E ô cambada para babar na minha barriguinha defora, no meu samba mulata-barasileira, traveca, com fina delicadeza je t'aime, moi non plus. Um tipinho nada vulgar. Pero, depois, madrugada insone. Atacou-me uma dor de barriga humana, demasiada humana. Que consegui, óbvio, graças  a  todos (e como foram vários!) olhares maldosos, bem no meu sensitive body,
e ao excesso de cerveja, of corse.