quando eu quase pichei o CCBB
ou: Existem trajes e trajes
ou, melhor ainda: Sobre trajes e tragédias
É certo que larguei a moda. Custo a acreditar que freqüentei a faculdade quatro anos por nada. Não pode ter sido por nada e um dia ainda dou sentido para isso. Mas gosto de moda, gosto, não gosto. Gosto. Sou fútil o suficiente pra gostar de moda, de Madonna, de homens com carro, etc. Modinhas a parte, acredito piamente que moda é arte, por mais que às vezes pareça piada. O resto não suporto. Isso é papo pro meu querido Naur, esse sim, um ótimo profissional. Eu não, eu sou uma doidinha.
Sou doidinha e já fiz fama, foi o que me disse outro dia a figurinista Bel Paranhos, falando que comentava sobre mim para Bia Salgado (procurar no google: figurino Cidade de Deus), Ah, a Si, uma que é bem doidinha. Elas, por sinal, devem se achar muito normais. Outro dia fui procurar estágio na Globo. Caí na mão da grande figurinista de porra nenhuma. Figurinista da Malhação, daí você imagina... a mulher ainda se achava alguma coisa por ter feito o figurino de Mulheres de Areia, eu nem lembro se era nascida quando ela realizou tal façanha. Foi então que pensei: O que eu estou fazendo com a minha vida? E mandei tomar no cu, estou mandando agora de novo porque, já falei, larguei a moda, figurino, qualquer dessas coisas que me irritam.
O Rio de Janeiro me irrita sobremaneira. Irrita ver tanta gente merda nenhuma se achando muito. Sabe o que é, é a humanidade e é uma bosta. Visto que nem dirigente tem que preste, e levando em consideração que "todo povo tem o governo que merece" o governador do Rio é o Sergio Cabral.
Outro dia fui visitar o Ícaro, tarde sem ter mais o que fazer. Uma caminhada de dez a quinze minutos do Catete até a Lapa, sem problemas. Fui com traje a rigor: calça jeans, sapato, camiseta e um tecido lindo amarrado no cabelo. Até porque era uma segunda-feira e, pra visitar o Ícaro, tá arrumado demais. Ele não tem nem a sensibilidade de lhe receber de uma forma decente e fica ali, super a vontade, conversando contigo só de cueca. Blá blá blá, café, meu namorado liga: Amor, estou indo aí, vamos ver a exposição do Gustavo. Gustavo Speridião, um amigo do Flávio do quarteto inseparável da faculdade, estaria expondo no CCBB, na coletiva: NOVAARTE, show de trans, Vamos.
- Ícaro, Flávio está vindo.
- Beleza.
Ouquei, ele não vai se vestir, seja o que Deus quiser. Flávio chega, me queima com os olhos, eu já sabia: Como assim passar a tarde com seu amigo de cueca? Desculpa, querida, eu sei que é o Ícaro, vocês são só amigos, mas é instinto, sabe, não dá pra controlar. Não, não sei, é cultural e você é um machista. Não, meu bem, eu só não sou hippie, Vamos para casa?, Não dá tempo, Gustavo está nos esperando em casa, de lá vamos. Tudo bem, chegar com o artista é bacana, mas eu estou assim, de jeans. Ah, bobagem, Si, isso não é problema, o negócio lá é simples, vamos corrrendo.
O negócio era realmente bem simples, vi logo na entrada: Pessoas mendigando um convite e atirando em todos que chegavam e entravam, uma placa: uau, você tem convite, você é cool. Mas eu não era cool. Eu senti foi o peso de uma mochila nas minhas costas - Apesar de estar com uma bolsinha delicada e pequenina, azul turquesa. Todas as damas a minha volta estavam de longo, salto, laquê no cabelo. Eu estava de jeans. Meu namorado e os outros dois estavam bem. Isso não importa, Si, parece que me diziam, tão nem aí que estavam. Claro, eles são artistas, um saiu na vogue: O queridinho do underground. Pode chegar só de cueca, tal qual o Ícaro, e vão compreender a liberdade e a complexa alma do artista, e as meninas vão continuar soltando leves suspiros. A namorada do Gustavo, por exemplo, estava bem no seu tailleur preto, meias pretas, um salto e uma leve maquiagem. Eu sei que eu poderia ficar bem também, poderia ficar melhor do que todas as cafuçús alí. Mas eu estava de jeans, com uma mochila imaginária nas costas. E ainda estava chapada, pra piorar. É proibido, gata, você surta. Pois é, mas é igual a camarão: Eu sempre provo esperando que passe a alergia, aí acabo toda empolada. Estava toda empolada, lesada e paranóica. Passei sem olhar e sem parar pela entrada, onde estavam trocentos seguranças. Sem me preocupar sequer em verificar se o meu nome estava na hypada lista. Quando percebi o equívoco, fiquei dando voltas, totalmente sem nexo, por trás dos seguranças, de volta pra saída, dentro de novo, acho que queria desnorteá-los, não sei. Enquanto Júlia, salto e meias pretas, mostrava para eles meu nome na listinha, tentando explicar que eu era normal.
Pronto, já estou dentro, pensei, agora é esperar o segundo pavilhão ser liberado, para ver o trabalho do Gustavo. Esperar também que liberem o espumante, para eu encher a cara e ser feliz como só eu consigo ser, ou só como eu consigo ser. Mas que triste engano. Lá dentro o drama só piorou. NINGUÉM olhava pra mim e, se olhava, devia pensar: Valha-me, deus! Quer dizer, isso se fossem nordestinos, não sei como os cariocas pensam. Mas sei que pensavam alguma coisa, principalmente os seguranças, eles não eram nada discretos, com seus rádios e ternos pretos com caimento tão lamentável. No entanto, eu continuava querendo morrer, porque não me saía da cabeça a certeza de que eu era a senhorita mais bela e hype da festa e, do contrário, estava de jaqueta jeans, toda borralheira. Sim, eu tencionava omitir, mas aDImito: estava de jaqueta jeans. Eu estava indo visitar o Ícaro, pelo amor de Deus. Ia escrever isso na camiseta branca, que ia por baixo. "Eu estava indo visitar o Ícaro, pelo amor de Deus" Rabiscado em negrito. Quando pedi uma caneta pro meu namorado ele disse que eu era boba e fútil. Certo.
Sabe quando você compreende e aceita que a situação é sem jeito? Que aquelas velhas laquesadas não estavam entendendo porra nenhuma, que os velhos, ainda que machos, também não estavam entendendo, que os artistas muito menos entendiam alguma coisa. Exceto o Gustavo, e não é porque é meu amigo, juro. Mais uns dois ou três que por pouco se salvavam daquele mar de merda em que está imerso o CCBB. Era de cuspir, de gritar, de sair estapeando, totalmente pirada e paranóica que eu estava, por ingerir substâncias ilícitas que tanto me prejudicam. Estava vendo a hora, naquele picadeiro, ninguém conseguir passar pela porta e ir embora, como se um Anjo Exterminador pairasse por ali. Decidi que melhor seria eu sair correndo, antes de fenecer, ou de fazer o meu papel de palhaça. O Rei está nú, imbecis! Ia gritar, mas preferi me comportar e agir conforme os padrões até conseguir fugir. Mas como entrar nos tais padrões se nem estava fantasiada de acordo? Estava era totalmente ariada. "O celular, não deixe que ele toque, porque você grita no celular". Lembrei, como prova de que Deus não me abandona, e cuidadosamente desliguei e coloquei no bolso da jaqueta, um bolso pequeno. Tive que segurar pra ele não cair, tensa. Os seguranças totalmente alarmados, eu prestes a ser abordada: "Vamos, dá esse spray, sua putinha, baderneira de merda. Vá pichar a Bienal!" A morte para mim já não era o suficiente. Eu queria a morte e o esquecimento. Pedi pro meu querido que me tirasse dali sem mais, que bebida temos em casa, que o Gustavo está muito ocupado fazendo a linha, e vamos sem avisar. A Deus, pedi para meu rosto não ser lembrado e que, logo logo, tenha uma próxima vez, preu botar um saltinho simpático, meu pavão de seda, e uma make up escândalo, Amém.
Alívio geral dos seguranças quando eu saí: Tudo ouquei - pro radinho.
