Não falaram muito, foi um desjejum rápido e fazia sol, a muitos quilômetros de Kindberg pararam para tomar outro café, Lina quatro cubos de açúcar e a cara lavada, ausente, uma espécie de felicidade abstrata, e então você sabe, não zangue, diga que não vai se zangar, mas claro que não, diga o que for, se precisa de alguma coisa, parando no exato limite do lugar-comum porque a palavra tinha estado ali como as notas em sua carteira, esperando que as usassem e já a ponto de dizê-la quando a mão de Lina tímida na sua, a franja cobrindo-lhe os olhos e por fim perguntar-lhe se podia continuar mais um pouco com ele embora já não fosse o mesmo caminho, que importância tinha, continuar mais um pouco com ele porque se sentia tão bem, que durasse mais um pouquinho com aquele sol, dormiremos no bosque, mostrarei a você o disco e os desenhos, só até a noite se você quiser, e sentir que sim, que queria, que não havia razão para que não quisesse, e afastar lentamente a mão e dizer-lhe que não, melhor não, sabe, aqui você vai encontrar fácil, é um grande cruzamento, e a ursinha aceitando como que subitamente golpeada e distante, comendo com a cara abaixada os cubos de açúcar, vendo-o pagar e levantar-se e trazer-lhe a mochila e beijá-la no cabelo e dar-lhe as costas e perder-se numa furiosa mudança de velocidades, cinqüenta, oitenta, cento e dez, ocaminho aberto para os corretores de materiais pré-fabricados, o caminho sem Copenhague e somente cheio de veleiros podres nas valas, de empregos cada vez mais bem pagos, do murmúrio portenho do Rubi, da sombra do plátano solitário na curva, do tronco onde se incrustou a cento e sessenta com a cara enfiada no volante como Lina abaixara a cara porque as ursinhas abaixam a cara dessa maneira para comer o açúcar.
Lugar Chamado Kindberg - Julio Cortázar
última vez que eu transcrevo Julio Cortázar, eu prometo.
pelo menos esse ano
