
São cinco da matina e cá estou escrevendo, porque tive um sonho maluco, uma comunidade no orkut: Não gosto de pessoas bonitas; ou era: Não gosto de pessoas feias. Não sei, sei que a imagem era uma foto minha, e tinha apenas três membros. Estou longe de entender o significado disso, mas não consegui mais dormir. Fiquei pensando no Rio de Janeiro, neste ano, nas pessoas, características e costumes, acho que dá um livro. Só que não consigo dosar minha hostilidade e agressividade, dizem, então nunca publico. Estou acrescentando mais umas páginas: As diferenças! É questão de educação... Somos apenas diferentes - estou tentando aceitar isso - não há melhor nem pior cultura, Sirlanney - repito todos os dias. Se temos algo em comum? Sim, o carioca já nasce se achando superior, e o cearense nasce com a mesma opinião. É uma palhaçada, mas é algo. Eu estava paquerando na livraria. Senhores finos esses que grudavam o olho em mim. Será que desconfiavam minha origem, assim, só olhando essa magra bem vestida, de olhar tão blasé? Tinha esquecido como é chato ser bonita, as feias nunca te dão informação. Estou agora de cabelo novo, a auto-estima recuperada, meu rosto exótico de sempre, o corpinho dentro dos conformes, nenhum excesso saltando ou sacudindo em parte alguma.
Eu esperava na livraria que me chamassem para uma entrevista de emprego. Algumas horas de atraso carioca e me levam para uma sala de estoque, pequenina e bagunçada. Lá, uma gordinha, cabeça achatada, louro artificial, começou a me falar das vantagens de ser quem ela era: Vendedora Prata da Livraria Saraiva. Uau, eu estava impressionada. E ela continuava se apresentando, o orgulho lhe escorria por todos os poros: Então, nós, os Pratas, que trabalhamos na empresa há sete anos, somos quem tem autorização para dar desconto, para fazer entrevista, bem, nós somos os Pratas. Eu mal podia esperar pra conseguir ser uma prata também, principalmente depois que eu ouvi o lema da empresa: O prata vale ouro. Ela estava encantada com sua posição.
Nessas alturas eu já tinha me apresentado também: faculdade de moda quase concluída, livro publicado, alguns projetos, o Rio no meio disso tudo.
- Por que vir estudar no Rio?
- Não sei, eu tinha uma namorada, sabe, era louca por ela, ela decidiu vir, eu achava que perto dela tudo ia bem, não importava o lugar.
- Sei.
- Por que vir estudar no Rio?
- Ah, porque o diploma vai ficar mais bonito. Não sei, é uma impressão (pensando com a mente do colonizado).
- Como assim, mais bonito?
- Bem, você sabe, é melhor pra conseguir emprego, dizer: Me formei no Rio (não me pergunte mais, por favor)
- E é mais bonito?
- Ah, deve ser como aqui, uma pessoa formada em Paris.
- Mas aqui no Rio não tem isso.
- Claro que tem, uma pessoa formada em Paris, por exemplo.
- Sim, mas estou falando de Brasil.
- Ah, claro que não, aqui é o centro do país!
Mais um pouco e eu vou daqui pro suicídio.
Depois chega um rapazinho simpático, ele se apresenta, também é Prata, me fale um pouco do seu orgulho de ser Prata, de trabalhar feito um jumento há sete anos exercendo a mesma função bosta da sua vidinha de vendedor, e ter o poder de dar descontos, claro. Falado tudo, hora de voltar a mim, ele:
- Então, você é... Peraí... aqui tá dizendo que você é... de onde você é mesmo?
- Morada Nova, interior do Ceará.
Ele quase saltou:
- Mesmo? e onde fica, fica perto de quê?
- Bem, é a Região do Vale do Jaguaribe.
- Você conhece Mongombó (não lembro o nome, mas devia ser algo assim) Fica perto de... não sei.
- Se for da região do Cariri, eu realmente não conheço nada.
- Perto de Canidé.
- Então, Cariri, você é de lá?
- Meus pais têm uma casa lá.
Bingo! Meus pais têm uma casa lá é a melhor. Vou dizer agora quando perguntarem de onde eu sou: Meus pais têm uma, não, vááárias casas lá. Cariocas! Sim, porque ele nasceu aqui, e com seus pais retirantes mais o colégio, etc., aprendeu direitinho a ser mais um carioca babaca. Aí vem a outra: Hahahah, tem uns nomes engraçados, né, os lugares lá!
Sim, Macaé, por exemplo, é um nome muito sério. E Niterói? É incrível: Ni-te-roi. Na maior parte do tempo, eu não consigo compreender os cariocas, sua lingua. Mas a linguagem das entrevistas de emprego tem um padrão, tem um roteiro. E aqueles dois não sabiam o que estavam fazendo. Perguntavam os clichês, sem qualquer objetivo: Por que a Saraiva?
Ah, essa é fácil: Livraria, sabe, e a Saraiva ainda mais... É questão de sonho, eu sonhei, um dia ainda vou trabalhar na Livraria Saraiva!
Moda!!! Certo, a gordinha carioca queria ouvir sobre moda.
- Aquelas coisas na passarela... Não dá pra vestir, né, como é que pode?
Ai, cristo, me salve, vamos lá:
Em número e gênero.
Depois, arremato com aquele outro Bernardo, o ajudante de guarda-livros:
"A Decadência é a perda total da inconsciência"
Rio de Janeiro, a cidade da inconsciência!
Decadence avec elegance, per moi.
Nem a Corte agüentou.
Não fui agressiva, fui?
Ah, me poupe.
Eu esperava na livraria que me chamassem para uma entrevista de emprego. Algumas horas de atraso carioca e me levam para uma sala de estoque, pequenina e bagunçada. Lá, uma gordinha, cabeça achatada, louro artificial, começou a me falar das vantagens de ser quem ela era: Vendedora Prata da Livraria Saraiva. Uau, eu estava impressionada. E ela continuava se apresentando, o orgulho lhe escorria por todos os poros: Então, nós, os Pratas, que trabalhamos na empresa há sete anos, somos quem tem autorização para dar desconto, para fazer entrevista, bem, nós somos os Pratas. Eu mal podia esperar pra conseguir ser uma prata também, principalmente depois que eu ouvi o lema da empresa: O prata vale ouro. Ela estava encantada com sua posição.
Nessas alturas eu já tinha me apresentado também: faculdade de moda quase concluída, livro publicado, alguns projetos, o Rio no meio disso tudo.
- Por que vir estudar no Rio?
- Não sei, eu tinha uma namorada, sabe, era louca por ela, ela decidiu vir, eu achava que perto dela tudo ia bem, não importava o lugar.
- Sei.
- Por que vir estudar no Rio?
- Ah, porque o diploma vai ficar mais bonito. Não sei, é uma impressão (pensando com a mente do colonizado).
- Como assim, mais bonito?
- Bem, você sabe, é melhor pra conseguir emprego, dizer: Me formei no Rio (não me pergunte mais, por favor)
- E é mais bonito?
- Ah, deve ser como aqui, uma pessoa formada em Paris.
- Mas aqui no Rio não tem isso.
- Claro que tem, uma pessoa formada em Paris, por exemplo.
- Sim, mas estou falando de Brasil.
- Ah, claro que não, aqui é o centro do país!
Mais um pouco e eu vou daqui pro suicídio.
Depois chega um rapazinho simpático, ele se apresenta, também é Prata, me fale um pouco do seu orgulho de ser Prata, de trabalhar feito um jumento há sete anos exercendo a mesma função bosta da sua vidinha de vendedor, e ter o poder de dar descontos, claro. Falado tudo, hora de voltar a mim, ele:
- Então, você é... Peraí... aqui tá dizendo que você é... de onde você é mesmo?
- Morada Nova, interior do Ceará.
Ele quase saltou:
- Mesmo? e onde fica, fica perto de quê?
- Bem, é a Região do Vale do Jaguaribe.
- Você conhece Mongombó (não lembro o nome, mas devia ser algo assim) Fica perto de... não sei.
- Se for da região do Cariri, eu realmente não conheço nada.
- Perto de Canidé.
- Então, Cariri, você é de lá?
- Meus pais têm uma casa lá.
Bingo! Meus pais têm uma casa lá é a melhor. Vou dizer agora quando perguntarem de onde eu sou: Meus pais têm uma, não, vááárias casas lá. Cariocas! Sim, porque ele nasceu aqui, e com seus pais retirantes mais o colégio, etc., aprendeu direitinho a ser mais um carioca babaca. Aí vem a outra: Hahahah, tem uns nomes engraçados, né, os lugares lá!
Sim, Macaé, por exemplo, é um nome muito sério. E Niterói? É incrível: Ni-te-roi. Na maior parte do tempo, eu não consigo compreender os cariocas, sua lingua. Mas a linguagem das entrevistas de emprego tem um padrão, tem um roteiro. E aqueles dois não sabiam o que estavam fazendo. Perguntavam os clichês, sem qualquer objetivo: Por que a Saraiva?
Ah, essa é fácil: Livraria, sabe, e a Saraiva ainda mais... É questão de sonho, eu sonhei, um dia ainda vou trabalhar na Livraria Saraiva!
Moda!!! Certo, a gordinha carioca queria ouvir sobre moda.
- Aquelas coisas na passarela... Não dá pra vestir, né, como é que pode?
Ai, cristo, me salve, vamos lá:
- Não, querida, aquelas roupas são feitas para pessoas que têm dinheiro pra comprar e têm ocasiões em que se vestem assim.
- Eu nunca encontraria alguém vestido assim.
- Não em Copacabana. Você já viu o Oscar?
- Ah, não acredito que alguém se vista assim.
- É, é conceitual. (uma hora eu desisto.)
É claro que não fui contratada, mas eu me diverti. Às vezes eu sinto vontade de bater um bom papo sem compromisso. hahaha
-----------------------------------------------
queria falar também de ontem:
que eu vi Annie Hall novamente. Não sei se alguém consegue chorar com Annie Hall, mas tocou lá fundo, gente, eu chorei. Annie, Alvy, Los Angeles estragando tudo, essa cidade dos sonhos, cheia de idiotas, o sonho Califórnia. Pelo menos era Califórnia e não Rio Maravilha Mutante. Ademais, neurose é um clichê intelectual, não só para mim e Alvy. Concordamos, em número e gênero, como se diz, ele falando:
A vida pode ser horrível ou miserável. Ela é horrível se você é cego, tem alguma deficiência... Não imagino como as pessoas conseguem viver com isso, (eu ainda acrescento: se você fica pedindo comida e dorme nas calçadas com a perna apodrecendo) é horrível, Se você não é um desses, se sua vida não é horrível, então ela é miserável. Agradeça por ter uma vida miserável.
- Eu nunca encontraria alguém vestido assim.
- Não em Copacabana. Você já viu o Oscar?
- Ah, não acredito que alguém se vista assim.
- É, é conceitual. (uma hora eu desisto.)
É claro que não fui contratada, mas eu me diverti. Às vezes eu sinto vontade de bater um bom papo sem compromisso. hahaha
-----------------------------------------------
queria falar também de ontem:
que eu vi Annie Hall novamente. Não sei se alguém consegue chorar com Annie Hall, mas tocou lá fundo, gente, eu chorei. Annie, Alvy, Los Angeles estragando tudo, essa cidade dos sonhos, cheia de idiotas, o sonho Califórnia. Pelo menos era Califórnia e não Rio Maravilha Mutante. Ademais, neurose é um clichê intelectual, não só para mim e Alvy. Concordamos, em número e gênero, como se diz, ele falando:
A vida pode ser horrível ou miserável. Ela é horrível se você é cego, tem alguma deficiência... Não imagino como as pessoas conseguem viver com isso, (eu ainda acrescento: se você fica pedindo comida e dorme nas calçadas com a perna apodrecendo) é horrível, Se você não é um desses, se sua vida não é horrível, então ela é miserável. Agradeça por ter uma vida miserável.
Em número e gênero.
Depois, arremato com aquele outro Bernardo, o ajudante de guarda-livros:
"A Decadência é a perda total da inconsciência"
Rio de Janeiro, a cidade da inconsciência!
Decadence avec elegance, per moi.
Nem a Corte agüentou.
Não fui agressiva, fui?
Ah, me poupe.
