segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

feliz ano novo

BLANCHE
Vamos ser muito boêmios esta noite. Vamos fazer de conta que estamos sentados num pequeno café de artistas, na Rive Gauche, em Paris. Moi, je suis la Dame aux Camélias! Vous êtes... Armand! Você entende Francês?

MITCH
Não. Não eu...

BLANCHE
Voulez vous coucher avec moi ce soir. Vous ne comprenez pas? Ah, quelle dommage! Quero dizer, ainda bem. 

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


10 de dezembro de 2007 :

Agora que decidi escrever sobre isso, ainda não estou certa se sobre isso, que sempre evito. Talvez eu precise de um amor apenas para ter algo leve-cortante para pensar enquanto olho pela janela do ônibus, a mesma paisagem.  Agora estão sem graça as viagens. Penso em coisas sérias, e essas coisas exigem demais, não é agradável nem leve, ainda que cortante. Nada que rasgue nem de significativo para gravar nos outdoors. Tudo é breve e não pode ficar espalhado pela cidade. E claro que sinto falta, de tal forma que decidi e venho lhe pedir, querido, que fuja comigo. 

Tenho um plano: Buenos Aires, você e eu. Não será difícil, cuidaremos cada um de arranjar um sustento. Faremos um ninhozinho, dessa vez teremos flores. Então eu sofrerei como desejo, como minha natureza pede, como me é vital. Você trará de novo a poesia. Eu voltarei a corroer-me cada vez que você sair as nove da manhã (mesmo que eu lhe apresse para isso, porque é importante que você não perca o emprego) e ficar tão atordoada passeando pela casa, até decidir dobrar cada uma de suas camisas e lhe possuir através disso. Depois, calada, mas ofendida, chorar porque você tarda e quando chega se interessa mais por um joguinho qualquer que por mim e, no fim, morrer tão deliciosamente nos seus braços, desesperadamente e de novo a cada lembrança. 

Agora mal lembro, meu bem. Lembro tão apagado, só os fatos, quase sem sensações. Preciso que me diga se vai, se vamos, se aceita. Como quando você estava com aquela tosse sem fim e eu não sabia mais o que fazer, pois sempre que muito me esforçava fazia alguma coisa errada, e sua tia, uma senhora tão doce, foi lhe salvar de mim e da tosse. Sua tia, que não me enganava nada com aquela candura e jeito de vovó, lhe tirou de mim. Eu chorei a noite toda, mas no dia seguinte, vesti uma roupa toda justa, um salto e pintei os olhos (eu sempre pintava os olhos e rosava as bochechas quando estava contigo) e fui lhe buscar de volta para meus descuidados. Você estava mimado, de meias, samba-canção, cachecol, vitamina e biscoito. Que me importava?, sem rodeios disse que você voltaria comigo e sem rodeios você obedeceu. 

Fez apenas um bilhete de desculpas, com sua letra linda e algumas mentiras. Então, escreve seus bilhetes de desculpas e vamos embora, porque quase não sinto mais sua falta.

domingo, 21 de dezembro de 2008


Ser normal deve ser um saco. Vestir-se normal, trabalhar normal, expediente normal, ter idéias normais. Essas geralmente herdadas de gerações, aprendida com os pais. Nascer, crescer, se matar de estudar (às vezes), passar no vestibular, definir uma profissão (dessas que já estão definidas pelo conjunto da sociedade, quer seja vinda de um curso técnico ou superior), casar, ter filho, e repetir o ciclo todo novamente. Nada muda, além dos problemas crescentes advindas da modernidade. Mais estresse, menos ar respirável, dificuldade de um emprego minimamente descente, violência, mais filas para todo lado que se vá. Em compensação, a velocidade do PC e da net vai também aumentando à medida que o preço cai. Bela compensação.


Cada vez mais difícil de não ser normal. Alguns tentam fazer coisas ousadas, diferentes, seguir os próprios instintos. Mas não há mais nada diferente. Já está tudo devidamente catalogado, rotulado, embrulhado e disposto em arquivos para consultas posteriores. Ser normal não rende nem uma história. Apesar de toda essa mesmice que marca o início do milênio, há algumas raras pessoas que ainda buscam o seu sonho pessoal. Não aquela idéia de conseguir sair da vala comum e conquistar o topo da pirâmide social, julgando-se ser de uma fibra superior. Mas o desejo firme de escrever uma história que não tem paralelo no seu meio. 

São essas pessoas que têm a minha admiração.

(Júlio é jornalista na terra do sol. Grande amigo, desde quando Magra de Ruim era uma punkrock.)

Estou, é obvio, encantada. Então é isso, minha vida é toda torta, mas eu tenho o que contar, é uma boa. Obrigada, Júlio.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

eu só consigo ser falsa.

depois eu conto.



assim: super efusiva, abraço e beijo, e falo demais...
desculpa.

classicão:

Todos acham que eu falo demais
e que ando bebendo demais... que essa vida parada...

tá meio parada.

fim.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

eu sei

eu sei, eu sei


ser louca está tão fora de moda!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

vocês queriam algo pra ler?




São cinco da matina e cá estou escrevendo, porque tive um sonho maluco, uma comunidade no orkut: Não gosto de pessoas bonitas; ou era: Não gosto de pessoas feias. Não sei, sei que a imagem era uma foto minha, e tinha apenas três membros. Estou longe de entender o significado disso, mas não consegui mais dormir. Fiquei pensando no Rio de Janeiro, neste ano, nas pessoas, características e costumes, acho que dá um livro. Só que não consigo dosar minha hostilidade e agressividade, dizem, então nunca publico. Estou acrescentando mais umas páginas: As diferenças! É questão de educação... Somos apenas diferentes - estou tentando aceitar isso - não há melhor nem pior cultura, Sirlanney - repito todos os dias. Se temos algo em comum? Sim, o carioca já nasce se achando superior, e o cearense nasce com a mesma opinião. É uma palhaçada, mas é algo. Eu estava paquerando na livraria. Senhores finos esses que grudavam o olho em mim. Será que desconfiavam minha origem, assim, só olhando essa magra bem vestida, de olhar tão blasé? Tinha esquecido como é chato ser bonita, as feias nunca te dão informação. Estou agora de cabelo novo, a auto-estima recuperada, meu rosto exótico de sempre, o corpinho dentro dos conformes, nenhum excesso saltando ou sacudindo em parte alguma.

Eu esperava na livraria que me chamassem para uma entrevista de emprego. Algumas horas de atraso carioca e me levam para uma sala de estoque, pequenina e bagunçada. Lá, uma gordinha, cabeça achatada, louro artificial, começou a me falar das vantagens de ser quem ela era: Vendedora Prata da Livraria Saraiva. Uau, eu estava impressionada. E ela continuava se apresentando, o orgulho lhe escorria por todos os poros: Então, nós, os Pratas, que trabalhamos na empresa há sete anos, somos quem tem autorização para dar desconto, para fazer entrevista, bem, nós somos os Pratas. Eu mal podia esperar pra conseguir ser uma prata também, principalmente depois que eu ouvi o lema da empresa: O prata vale ouro. Ela estava encantada com sua posição.
Nessas alturas eu já tinha me apresentado também: faculdade de moda quase concluída, livro publicado, alguns projetos, o Rio no meio disso tudo.
- Por que vir estudar no Rio?
- Não sei, eu tinha uma namorada, sabe, era louca por ela, ela decidiu vir, eu achava que perto dela tudo ia bem, não importava o lugar.
- Sei.

- Por que vir estudar no Rio?
- Ah, porque o diploma vai ficar mais bonito. Não sei, é uma impressão (pensando com a mente do colonizado).
- Como assim, mais bonito?
- Bem, você sabe, é melhor pra conseguir emprego, dizer: Me formei no Rio (não me pergunte mais, por favor)
- E é mais bonito?
- Ah, deve ser como aqui, uma pessoa formada em Paris.
- Mas aqui no Rio não tem isso.
- Claro que tem, uma pessoa formada em Paris, por exemplo.
- Sim, mas estou falando de Brasil.
- Ah, claro que não, aqui é o centro do país!

Mais um pouco e eu vou daqui pro suicídio.

Depois chega um rapazinho simpático, ele se apresenta, também é Prata, me fale um pouco do seu orgulho de ser Prata, de trabalhar feito um jumento há sete anos exercendo a mesma função bosta da sua vidinha de vendedor, e ter o poder de dar descontos, claro. Falado tudo, hora de voltar a mim, ele:
- Então, você é... Peraí... aqui tá dizendo que você é... de onde você é mesmo?
- Morada Nova, interior do Ceará.
Ele quase saltou:
- Mesmo? e onde fica, fica perto de quê?
- Bem, é a Região do Vale do Jaguaribe.
- Você conhece Mongombó (não lembro o nome, mas devia ser algo assim) Fica perto de... não sei.
- Se for da região do Cariri, eu realmente não conheço nada.
- Perto de Canidé.
- Então, Cariri, você é de lá?
- Meus pais têm uma casa lá.

Bingo! Meus pais têm uma casa lá é a melhor. Vou dizer agora quando perguntarem de onde eu sou: Meus pais têm uma, não, vááárias casas lá. Cariocas! Sim, porque ele nasceu aqui, e com seus pais retirantes mais o colégio, etc., aprendeu direitinho a ser mais um carioca babaca. Aí vem a outra: Hahahah, tem uns nomes engraçados, né, os lugares lá!
Sim, Macaé, por exemplo, é um nome muito sério. E Niterói? É incrível: Ni-te-roi. Na maior parte do tempo, eu não consigo compreender os cariocas, sua lingua. Mas a linguagem das entrevistas de emprego tem um padrão, tem um roteiro. E aqueles dois não sabiam o que estavam fazendo. Perguntavam os clichês, sem qualquer objetivo: Por que a Saraiva?
Ah, essa é fácil: Livraria, sabe, e a Saraiva ainda mais... É questão de sonho, eu sonhei, um dia ainda vou trabalhar na Livraria Saraiva!

Moda!!! Certo, a gordinha carioca queria ouvir sobre moda.
- Aquelas coisas na passarela... Não dá pra vestir, né, como é que pode?
Ai, cristo, me salve, vamos lá:
- Não, querida, aquelas roupas são feitas para pessoas que têm dinheiro pra comprar e têm ocasiões em que se vestem assim.
- Eu nunca encontraria alguém vestido assim.
- Não em Copacabana. Você já viu o Oscar?
- Ah, não acredito que alguém se vista assim.
- É, é conceitual. (uma hora eu desisto.)

É claro que não fui contratada, mas eu me diverti. Às vezes eu sinto vontade de bater um bom papo sem compromisso. hahaha


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queria falar também de ontem:
que eu vi Annie Hall novamente. Não sei se alguém consegue chorar com Annie Hall, mas tocou lá fundo, gente, eu chorei. Annie, Alvy, Los Angeles estragando tudo, essa cidade dos sonhos, cheia de idiotas, o sonho Califórnia. Pelo menos era Califórnia e não Rio Maravilha Mutante. Ademais, neurose é um clichê intelectual, não só para mim e Alvy. Concordamos, em número e gênero, como se diz, ele falando:
A vida pode ser horrível ou miserável. Ela é horrível se você é cego, tem alguma deficiência... Não imagino como as pessoas conseguem viver com isso, (eu ainda acrescento: se você fica pedindo comida e dorme nas calçadas com a perna apodrecendo) é horrível, Se você não é um desses, se sua vida não é horrível, então ela é miserável. Agradeça por ter uma vida miserável.

Em número e gênero.

Depois, arremato com aquele outro Bernardo, o ajudante de guarda-livros:
"A Decadência é a perda total da inconsciência"
Rio de Janeiro, a cidade da inconsciência!

Decadence avec elegance, per moi.

Nem a Corte agüentou.

Não fui agressiva, fui?

Ah, me poupe.

Receita de Mulher

Receita de mulher
Vinícius de Moraes


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, 
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize 
elegantemente em azul, 
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso 
que súbito tenha-se a 
impressão de ver uma 
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só 
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas 
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, 
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que 
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e 
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, 
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: 
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário. 
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente 
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

eu me como

Eu Me Como

Ah, acabei de mirar no espelho, o dia apenas começou e eu já estou me comendo. Acordei com uma barriguinha (ou a falta dela) dígna de Sirlanney. Então você pensa, o que leva uma garota que se diz sensata, adulta, inteligente, etc, a fazer um comentário desses? Resp.: Nada mais que acordar com uma barriguinha (ou a falta dela, como queiram) dígna de Sirlanney. Não é anorexia, meu povo, é apenas porque acentua minhas curvas-violão. Ouquei. Eu só estou um pouco estonteada, porque ontem passei pela festinha de aniversário do meu namorado, com almoço, sobremesa, doces, bolo, torta, mãe, tio, prima... Saindo da rotina macarrão nosso de cada dia, minha única e adorada receita. E, observe, espelho espelho meu, que barriguinha inexistente acentuando as curvas.. an an, nada mal depois de um domingo gordo.
...
Pronto, passou.
Vou até colocar um link, no tema... no tema da minha mudança de hábitos.
e também da seção: Eu amo meu youtube!

com vocês, solteiras e solteiros, laricados e laricadas em geral, para quem entende a necessidade da criatividade na culinária junk, ou só para rir do nojo que é tudo isso, o mais gordo: Paulo de Oliveira.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

já falei, chega de drama.





preparem-se para a fase fofinha =)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Não falaram muito, foi um desjejum rápido e fazia sol, a muitos quilômetros de Kindberg pararam para tomar outro café, Lina quatro cubos de açúcar e a cara lavada, ausente, uma espécie de felicidade abstrata, e então você sabe, não zangue, diga que não vai se zangar, mas claro que não, diga o que for, se precisa de alguma coisa, parando no exato limite do lugar-comum porque a palavra tinha estado ali como as notas em sua carteira, esperando que as usassem e já a ponto de dizê-la quando a mão de Lina tímida na sua, a franja cobrindo-lhe os olhos e por fim perguntar-lhe se podia continuar mais um pouco com ele embora já não fosse o mesmo caminho, que importância tinha, continuar mais um pouco com ele porque se sentia tão bem, que durasse mais um pouquinho com aquele sol, dormiremos no bosque, mostrarei a você o disco e os desenhos, só até a noite se você quiser, e sentir que sim, que queria, que não havia razão para que não quisesse, e afastar lentamente a mão e dizer-lhe que não, melhor não, sabe, aqui você vai encontrar fácil, é um grande cruzamento, e a ursinha aceitando como que subitamente golpeada e distante, comendo com a cara abaixada os cubos de açúcar, vendo-o pagar e levantar-se e trazer-lhe a mochila e beijá-la no cabelo e dar-lhe as costas e perder-se numa furiosa mudança de velocidades, cinqüenta, oitenta, cento e dez, ocaminho aberto para os corretores de materiais pré-fabricados, o caminho sem Copenhague e somente cheio de veleiros podres nas valas, de empregos cada vez mais bem pagos, do murmúrio portenho do Rubi, da sombra do plátano solitário na curva, do tronco onde se incrustou a cento e sessenta com a cara enfiada no volante como Lina abaixara a cara porque as ursinhas abaixam a cara dessa maneira para comer o açúcar. 

Lugar Chamado Kindberg - Julio Cortázar


última vez que eu transcrevo Julio Cortázar, eu prometo. 
pelo menos esse ano